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Um levantamento inédito realizado no Brasil identificou a presença marcante do racismo no audiovisual, revelando disparidades salariais, discriminação linguística e tentativas de higienizar produções sonoras no mercado nacional. O dossiê A Cor do Som, lançado nesta semana pelas organizações Semiótica Antirracista e Estúdio Nina com apoio da Audiolivros, expõe como a estrutura técnica e criativa do setor perpetua desigualdades raciais contra profissionais negros.
A pesquisa foi desenvolvida a partir de depoimentos de 24 entrevistados, incluindo 18 especialistas negros das áreas técnica e criativa, quatro acadêmicos e duas personalidades do movimento racial. O trabalho frisa que os timbres humanos são diversos e rejeita a ideia de que existam timbres específicos atrelados à cor da pele.
A estética da higienização sonora
De acordo com o documento, a produção de áudio no país ainda segue um padrão eurocêntrico e elitista. Esse modelo impõe a necessidade de limpeza total do som, descartando marcas culturais afro-brasileiras e ruídos das periferias para atender a uma pretensa neutralidade técnica.
Além do aspecto técnico, o levantamento denuncia a imposição de uma norma culta rígida que desvaloriza variações linguísticas. O estudo resgata o conceito de Pretuguês, formulado por Lélia Gonzalez, para destacar a contribuição africana na linguagem popular frequentemente marginalizada pelo mercado.
Desigualdades no mercado de trabalho
No ambiente corporativo de estúdios e agências de publicidade, os trabalhadores negros relatam barreiras profundas. Entre os principais problemas listados no levantamento estão:
- Remuneração inferior em comparação a colegas brancos na mesma função;
- Contratação intencional de negros com foco em salários mais baixos;
- Dificuldades no reconhecimento de competências e em obter precificação justa;
- Sobrecarga de trabalho para comprovar capacidade técnica;
- Falta de crédito na autoria e no desenvolvimento de projetos.
Barreiras na criação e visão de nicho
O levantamento destaca que profissionais negros costumam ser direcionados prioritariamente para funções braçais e operacionais, sendo excluídos dos espaços de decisão e criação de roteiros. Um dos relatos colhidos exemplifica o desligamento de um trabalhador qualificado após solicitar aumento salarial, sendo substituído por uma influenciadora branca.
Outro ponto crítico abordado é o enquadramento restritivo das produções realizadas por pessoas pretas. O setor costuma rotular esses conteúdos como produtos de nicho, enquanto produções concebidas por pessoas brancas são tratadas de forma universal.
Enfrentando o silenciamento
Os autores do dossiê ressaltam que o silenciamento é uma das ferramentas mais recorrentes da discriminação racial. Por isso, a investigação propõe uma revisão urgente dos fluxos produtivos e das narrativas vigentes, buscando provocar transformações profundas na indústria do som no Brasil.